Por: Adaptação Prof. Dr. Marcos Ferreira Santos Mukashi... mukashi**...

Havia um mestre chamado Nakamaro Profundo conhecedor das coisas Convidado a estudar na China pelo próprio imperador, Tornou-se venerável professor, mas nunca mais, Para sua terra, Nihon, nas ilhas do Japão, retornou. Um de seus descendentes, Samurai de nome Abeno-Yasuna, Exímio arqueiro e galopador, Não entendia o que guardavam as letras, As palavras dos livros, das artes e das ciências. Incapaz de honrar seu ancestral, Resolveu ter um filho Estudioso, que fosse como o tal, Um venerável mestre e professor. Recolhia-se, todos os meses, na floresta de Shinoda A rezar para os deuses, para cumprir o destino, Um filho que fosse como seu ancestral, Um venerável mestre e professor. Num outono de vento forte e flores vermelhas, Quando se recolhia Amaterasu, deusa do Sol, E Marishi-ten, a deusa do raio de luz, deitava-se ao mar, Depois de rezar e pedir com fervor. Quis em zazen a paisagem contemplar, Seus servos montaram uma tenda rápida, Recolheram-se em cantigas a contar velhas histórias E a tomar sakê, o vinho das lágrimas, Memória líquida dos campos de arroz. Naquele momento, entrou na tenda - Rápida e fugaz - uma coisa castanha De grossa cauda macia e vermelha. No kimono de Yasuna, a se esconder sob sua manga, Chorosa e assustada, uma raposa, bela e pequena. Logo se ouviram tambores e samurais gritando Pela tenda adentro, insultando e tudo revirando. Pela raposa esguia perguntando: - Somos servos do senhor Ishikawa, Irmão do vidente Dôman Ashiya. Procuramos pela raposa fugitiva! Yasuna, indignado com a falta de respeito, Com golpes certeiros de sua kataná Expulsa todos os samurais. Já longe, os perseguidores em fuga, Diz à raposa para se esconder na floresta E não mais voltar, a guardar a vida que lhe resta. O olhar da raposa, em gratidão e ternura, Com castanho sentimento penetrou sereno O pequeno coração do grande Yasuna. Ao voltar para casa, na estrada, Yasuna e os seus foram cercados e atacados - Ishikawa mandou prendê-lo a sofrer castigo. Todos lutaram, bravamente, mas sucumbiram, Ficando Yasuna, o bravo arqueiro, a resistir sozinho. Preso e ferido foi ter com Dôman, o vidente que disse: - De Ishikawa está doente a querida esposa E só o coração da fêmea raposa a poderia salvar. A deixaste fugir e, agora, a espada de Ishikawa Vingará com tua vida a tarefa perdida Já no alto a espada de Ishikawa luzindo, Alguém interfere aos brados perquirindo: - Ah, Senhor Ishikawa, o que estás A fazer tão longe de teu pagode? Yasuna levanta a cabeça e vê nobre cavaleiro-monge Do vale à montanha, da montanha ao monte, Cavalo de sombras anda desperto; anda liberto. De barba branca, voz marinha e dedos de raiz. - Senhor monge do templo de Fuji! Era o guardião dos antepassados de Ishikawa Recrimina o nobre em ato tão vil e pobre: - Isso não é bom, caçar raposa para a vida de sua esposa salvar. Agora quer tirar de outra pessoa a vida, castigo virá... Se, ao contrário, salvas; podes a tua família exemplar. Ishikawa liberta das cordas Yasuna E o deixa com o cavaleiro-monge para que, Na contemplação do Zen, monge se torne também. Caminhando juntos pelas sendas da floresta além, Yasuna agradece a vida salva e lhe responde o cavaleiro-monge: - Eu é que ainda tenho a agradecer pela vida que me salvaste Em uma situação tão estranha... Então, ao olhar para o cavaleiro-monge, tão-somente vê A pequena e bela raposa castanha. Mas, sem dizer palavra, ela se embrenha na mata. Yasuna intenta alcançá-la, mas em vão, porém, E ela volve a olhar para trás, uma e outra vez, O olhar da raposa em gratidão e ternura Com castanho sentimento penetrou sereno O coração pequeno do grande Yasuna. Cansado e ferido, ouve murmúrio de rio, Deita-se à margem a beber da água cristalina E se surpreende diante da figura repentina Jovem bela que lava roupa na correnteza Como se à biwa estivesse, entoa divina cantiga. Empalidece a paisagem com sua beleza. Assustada, recua e empalidece. - Não temas; não fujas menina da lua cheia! Yasuna lhe conta sua saga e desfalece Ela o socorre, feridas cuida e o alimenta. Ao querer partir, agradecido, Ela aconselha, com olhar enternecido: - Espera a primavera, arqueiro Yasuna, E aguarda a neve derreter. Assim, ele o fez; e feliz a viver como casal, não tardou a Nascer do amor dos dois um menino: Seimei, seu nome foi escolhido e Foi tão sonhado, tão pedido, tão querido... Yasuna caçava, cuidava da roça e do arroz, Letrava o menino, cuidava da esposa. Ela tecia estampas para os kimonos Com flores vermelhas como o outono. Sakura bordava cerejeiras em flor. Trabalhava tanto que um dia desmaiou Sobre a roda, a roca e os fusos. O filho confuso chama o pai a socorrer E, sob os tecidos deitados no chão, só vão encontrar, no lugar da esposa, A pata peluda em vermelhos tufos Da mesma pequena e castanha raposa: - Já não posso esconder, não posso ficar. Diz chorosa a raposa e na floresta vai se refugiar. O olhar da raposa em gratidão e ternura Com castanho sentimento penetrou sereno O coração pequeno do grande Yasuna. No dia seguinte, na parede do quarto, Um tanka, um poema gravado: “Venha à floresta de Shinoda “se saudades de mim sentir”, Seimei reconhece da mãe, a letra, E com o samurai Yasuna, seu pai, Se vão à busca: moitas, sarças, troncos, tocas, Chorando o menino no meio da mata de Shinoda, Sentindo a falta, da mãe ou raposa, pouco importa. A dorida raposa-mãe ouve o lamento Não resiste e aparece, alivia o sofrimento: - Dar-te-ei dois presentes para te guiar: Uma caixa com um gofû – carta sagrada do Dragão do Mar, Com a qual tudo tu podes ver, dentro e fora e tudo mais, E uma esfera que te revela, ao ouvido, toda fala, E o que dizem, em segredo, os animais. Terás, então, a abrir-te os caminhos, O sentimento e a razão, a esfera e a caixa, Yin e Yang e o equilíbrio: eis o mistério triplo. Guarda o conhecimento no coração - Que é de onde veio e para onde irá - E ninguém de ti o tirará. Assim, trilharás bem o teu shinto - O teu caminho. E cuida com carinho de quem te necessitar Por mais estranha que seja a situação que te ocorra Mesmo sendo uma pequena e castanha raposa. Seimei assim a casa retornou, Estudou as letras e ouviu histórias. Do ancestral Nakamaro muito aprendeu. Com vitória, aos baku, combateu Comedores de sonhos que habitam o desespero Com esmero e cuidado, obedeceu às estrelas. Plantou jardins, amou árvores e pescou nos mares. Ressuscitou ao pai, Yasuna, que Morrera de saudades da raposa. Cantou e observou a natureza, E foi grande mestre e profundo conhecedor. Assim se cumpriu sua destinação de professor: Sob um formoso arco-íris em plena chuva, Vivem o arqueiro, o cavaleiro-monge e a bela esposa, na alma da pequena e castanha raposa. O olhar da raposa em gratidão e ternura Com castanho sentimento penetrou sereno O coração pequeno do grande Yasuna. E a ressoar em profunda voz Aninha-se no coração de todos nós.
* Poema baseado em mito também conhecido como “O monge e a raposa”, a partir de KAWAI, Mitsuko (1997). Lendas do Japão. São Paulo: Editora do Escritor/Luz e Silva Editor. O cavaleiro-monge é a paráfrase de Fernando Pessoa (“Do vale à montanha”, 24/10/1932 e musicado por Tom Jobim), e possui, nesta narrativa mítica, as características de Jurojin, um dos sete deuses (kami) japoneses, símbolo da longevidade e da sabedoria, e um dos introdutores míticos do Zen (contemplação); bem como características de Bishamon, guerreiro e missionário, deus da abundância. A jovem esposa se assemelha à Benten ou Benzai-ten, deusa do mar e dos rios, das artes e do feminino, que na iconografia aparece tocando biwa (tradicional instrumento de cordas semelhante à mandolina). Em algumas versões, a própria raposa aparece como mensageira da deusa Inari, protetora dos ferreiros e do arroz. Texto adaptado pelo Prof. Dr. Marcos Ferreira Santos (www.marculus.net), livre-docente da Faculdade de Educação da USP, professor de mitologia comparada e de “Cultura & Educação”.
** Bordão tradicional japonês para iniciar a récita de antigas histórias. Pronunciado em tom encantatório e lento, equivale a dizer “há muito, muito, muito tempo atrás...” |