
Hábito se infiltra em nossos dias com seu tenue aconchego. Assim, caminhava às 6h da matina, apreciando o chegar do novo dia, enchendo meus pulmões dos ares úmidos e sentidos no brilho e sons que despertam sistematicamente meu entorno.Caminhar é um privilégio, mas caminhar na Lagoa da Pampulha é algo indescritível! Ver pássaros das mais variadas espécies, árvores majestosas, sentir a brisa no rosto se enlaçando pelo caminho. Compartilhar com outros seres a energia vivificante da alma. É mais que privilégio!
Agradeço à Deus pelo filme da natureza, nesse musical de maestria do Criador!
Os hábitos vem e vão como quer a vida. Por isso, hoje trilho minha caminhada na Lagoa, no horário bem diferente do oxigênio matinal. O tempo é um mister do dia se encontrando com a noite. Coisa sublime, nuances variadas e inspiradoras. Mudança no horário alterada pela preferência de minha filha Larissa, que me acompanha agora, diariamente, com seus passos que mais se parecem com um desfile altivo, tamanha sua delicadeza ao tocar o chão com seus pés. Pedala aos sábados comigo e anda durante a semana, seguindo o trajeto tão conhecido da Pampulha. Fico ali observando aquela moça, já com seus 15 anos, sorridente, contando suas façanhas diárias, sonhos, músicas, desalinhos e conquistas.
Minha memória anda como flash no passado e lá está ela, em seu carrinho de bebê, poucos dias de vida, se encantando com todos os movimentos existentes na ciclovia da Lagoa. Caminhei grávida, até a véspera de seu nascimento. A barriga chegava nas curvas sempre muitos minutos antes de mim. Ela, encolhida no meu ser, expandida em meu coração. Uma água de coco para aliviar o calor, hidratar e garantir os nutrientes do bebê. Tudo de bom!
Vários filmes sequenciais surgem e a pequena atriz em suas mais variadas idades, alí, na Lagoa, correndo, sorrindo, de bicicleta a me acompanhar aos sábados, dando a volta na Lagoa, em seus 18 km infindáveis. Lembro-me sorrindo de um sábado, onde já havíamos caminhado uns 16 km e as pernas já não correspondiam aos nossos desejos de chegada. Os corpos quase se entregando a exaustão. Larissa olhou-me, comentou de seu cansaço e me perguntou quanto faltava para chegarmos em casa. Respondi que faltavam uns 2 mil metros. Ela desesperada parou a bicicleta e argumentou: -nossa mãe, tou morta! Aguento chegar lá não! Para amenizar sua dor, engatei logo uma nova informação. Fica assim não minha filha, estamos quase chegando, pois estão faltando mesmo são 2 km! Ela, pequena, sem entender os meandos da Matemática, deu um suspiro forte e reforçou: - Puxa! Ainda bem! Achei que não ia conseguir pedalar 2 mil metros!
Outra feita, já quase na reta final dos 18 km, onde a energia parece dissipar pelos poros, dei um suspiro forte pedindo um reboque! - Meu Deus, não tenho mais força para chegar! Ela me olhou, deu um sorriso matreiro e chegou perto de mim. Pedalou devagar e disse: - quer ficar cheia de tecido adiposo na barriga e nas pernas? Vai ficar parecendo uma velha coroca! E saiu correndo, zombando de mim. Corri atrás dela e gritei: - vou te mostrar menina, quem é velha coroca aqui! Corri mais que sua bicicleta e ela deu um duro danado para me alcançar. Sorrimos muito e chegamos flutuando, embevecidas de cansaço e fortificadas de alegria.