sábado, 26 de setembro de 2009

Fanatismo - Florbela Espanca


Fanatismo


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !


Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !


E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

A Canção Desesperada - Pablo Neruda

pablo-neruda


Aparece tua recordação da noite em que estou.
O rio reúne-se ao mar seu lamento obstinado.

Abandonado como o impulso das auroras.
É a hora de partir, oh abandonado!

Sobre meu coração chovem frias corolas.
Oh sentina de escombros, feroz cova de náufragos!

Em ti se ajuntaram as guerras e os vôos.
De ti alcançaram as asas dos pássaros do canto.

Tudo que o bebeste, como a distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!

Era a alegre hora do assalto e o beijo.
A hora do estupor que ardia como um faro.

Ansiedade de piloto, fúria de um búzio cego
túrgida embriaguez de amor, Tudo em ti foi naufrágio!

Na infância de nevoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

Tu senti-se a dor e te agarraste ao desejo.
Caiu-te uma tristeza, Tudo em ti foi naufrágio!

Fiz retroceder a muralha de sombra.
Andei mais adiante do desejo e do ato.

Oh carne, carne minha, mulher que amei e perdi,
e em ti nesta hora úmida, evoco e faço o canto.

Como um vaso guardando a infinita ternura,
e o infinito olvido te quebrou como a um vaso.

Era a negra, negra solidão das ilhas,
e ali, mulher do amor, me acolheram os seus braços.

Era a sede e a fome, e tu foste à fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.

Ah mulher, não sei como pode me conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!

Meu desejo por ti foi o mais terrível e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais tirante e ávido.

Cemitério de beijos,existe fogo em tuas tumbas,
e os racimos ainda ardem picotados pelos pássaros.

Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos traçados.

Oh a cópula louca da esperança e esforço
em que nos ajuntamos e nos desesperamos.

E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra apenas começada nos lábios.

Esse foi meu destino e nele navegou o meu anseio,
e nele caiu meu anseio, Tudo em ti foi naufrágio!

Oh imundice dos escombros, que em ti tudo caía,
que a dor não exprimia, que ondas não te afogaram.

De tombo em tombo inda chamas-te e cantas-te
de pé como um marinheiro na proa de um barco.

Ainda floris-te em cantos, ainda rompes-te nas correntes.
Oh sentina dos escombros, poço aberto e amargo.

Pálido búzio cego, desventurado desgraçado,
descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

É a hora de partir, a dura e fria hora
que a noite sujeita a todos seus horários.

O cinturão ruidoso do mar da cidade da costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.

Abandonado como o impulso das auroras.
Somente a sombra tremula se retorce em minhas mãos.

Ah mais além de tudo. Ah mais além de tudo.
É a hora de partir. Oh abandonado.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Tuareg

A cada dia fica mais límpida a frase sábia dita por meu professor de física, quando era adolescente: - "tudo na vida depende do referencial." A palavra referencial na época representava, pra mim, apenas um pano de fundo no mundo da física, com seus sistemas de coordenadas que servem para medir grandezas como velocidade, aceleração e outras mais. Com o tempo, pude observar nos dias que fluíram mansamente ou desordenadamente em minha vida, que a frase era bem mais profunda que imaginava ser.

Várias são as verdades que existem dentro da ótica de cada um. Também as mentiras são variadas a cada dia, espaço ou contexto em que são ditas. Até a religião é dotada de verdades adequadas às crenças e doutrinas existentes em grupos diversificados espalhados pelo mundo.

O que é verdade para mim, para o outro não passa de uma larga ilusão ou algo parecido com a conformidade do irreal. Existindo comunicação, existem também falhas e desfigurações. Quem conta um conto aumenta um ponto, não é assim? Então tudo realmente depende do referencial existente.

Hoje pude constatar mais uma vez a pluralidade das verdades e costumes do ser humano ao terminar a leitura de Tuareg, um romance e aventura de Alberto Vazquez-Figueroa. Segundo o dono da livraria Van Damme, um jovem de aproximadamente 60 anos, exímio leitor pela profissão ou exímio profissional pela leitura, o livro Tuareg é o que mais causa contentamento à sua ótica de leitor devorador de mais de quatro mil exemplares até hoje. Já leu 20 vezes o mesmo romance e os exemplares do campeão de satisfação de leitura ficam em uma prateleira especial, a quem possa interessar levá-los como companheiros desse prazer inigualável.

O romance de Alberto Vázquez-Figueroa descreve a vida de um tuareg - homem duro, orgulhoso, guerreiro do deserto do Saara. Segundo a tradição de seu povo, os tuareg são homens especiais, dotados de inteligência avultada, criados por Alá, pois se não fossem assim, como conseguiriam viver nessa região praticamente inóspita do planeta? Garcel Sayad é um tuareg seguidor de seus princípios e códigos de honra e vai até as últimas consequencias para cumprir a honra da hospitalidade, mudando inclusive, sem intenção, a política de seu país.

O livro segue uma trajetória ascendente e vai seduzindo o leitor a cada página, com narrativas bem elaboradas, enredo original e principalmente com um final extremamente inesperado.

A indicação do Sr. Van Damme é realmente um presente aos que gostam de um ótimo romance.