terça-feira, 6 de julho de 2010

CAMINHADAS NA LAGOA DA PAMPULHA






Hábito se infiltra em nossos dias com seu tenue aconchego. Assim, caminhava às 6h da matina, apreciando o chegar do novo dia, enchendo meus pulmões dos ares úmidos e sentidos no brilho e sons que despertam sistematicamente meu entorno.Caminhar é um privilégio, mas caminhar na Lagoa da Pampulha é algo indescritível! Ver pássaros das mais variadas espécies, árvores majestosas, sentir a brisa no rosto se enlaçando pelo caminho. Compartilhar com outros seres a energia vivificante da alma. É mais que privilégio!
Agradeço à Deus pelo filme da natureza, nesse musical de maestria do Criador!
Os hábitos vem e vão como quer a vida. Por isso, hoje trilho minha caminhada na Lagoa, no horário bem diferente do oxigênio matinal. O tempo é um mister do dia se encontrando com a noite. Coisa sublime, nuances variadas e inspiradoras. Mudança no horário alterada pela preferência de minha filha Larissa, que me acompanha agora, diariamente, com seus passos que mais se parecem com um desfile altivo, tamanha sua delicadeza ao tocar o chão com seus pés. Pedala aos sábados comigo e anda durante a semana, seguindo o trajeto tão conhecido da Pampulha. Fico ali observando aquela moça, já com seus 15 anos, sorridente, contando suas façanhas diárias, sonhos, músicas, desalinhos e conquistas.
Minha memória anda como flash no passado e lá está ela, em seu carrinho de bebê, poucos dias de vida, se encantando com todos os movimentos existentes na ciclovia da Lagoa. Caminhei grávida, até a véspera de seu nascimento. A barriga chegava nas curvas sempre muitos minutos antes de mim. Ela, encolhida no meu ser, expandida em meu coração. Uma água de coco para aliviar o calor, hidratar e garantir os nutrientes do bebê. Tudo de bom!
Vários filmes sequenciais surgem e a pequena atriz em suas mais variadas idades, alí, na Lagoa, correndo, sorrindo, de bicicleta a me acompanhar aos sábados, dando a volta na Lagoa, em seus 18 km infindáveis. Lembro-me sorrindo de um sábado, onde já havíamos caminhado uns 16 km e as pernas já não correspondiam aos nossos desejos de chegada. Os corpos quase se entregando a exaustão. Larissa olhou-me, comentou de seu cansaço e me perguntou quanto faltava para chegarmos em casa. Respondi que faltavam uns 2 mil metros. Ela desesperada parou a bicicleta e argumentou: -nossa mãe, tou morta! Aguento chegar lá não! Para amenizar sua dor, engatei logo uma nova informação. Fica assim não minha filha, estamos quase chegando, pois estão faltando mesmo são 2 km! Ela, pequena, sem entender os meandos da Matemática, deu um suspiro forte e reforçou: - Puxa! Ainda bem! Achei que não ia conseguir pedalar 2 mil metros!
Outra feita, já quase na reta final dos 18 km, onde a energia parece dissipar pelos poros, dei um suspiro forte pedindo um reboque! - Meu Deus, não tenho mais força para chegar! Ela me olhou, deu um sorriso matreiro e chegou perto de mim. Pedalou devagar e disse: - quer ficar cheia de tecido adiposo na barriga e nas pernas? Vai ficar parecendo uma velha coroca! E saiu correndo, zombando de mim. Corri atrás dela e gritei: - vou te mostrar menina, quem é velha coroca aqui! Corri mais que sua bicicleta e ela deu um duro danado para me alcançar. Sorrimos muito e chegamos flutuando, embevecidas de cansaço e fortificadas de alegria.

quarta-feira, 10 de março de 2010

MEUS ETERNOS VINTE E UNS

Hoje acordei diferente. Diferente dos outros 364 dias que compõem nosso calendário gregoriano. Muito mais alerta para os segundos que separam as horas e as horas que separam a vida.
O dia nasceu claro, o sol aberto, disposto a nos energizar até os poros mais secretamente ocultos. Os pássaros ditaram as notas da cantoria matinal e seguiram doces naquela maestria sonora. Corri com a memória os anos que me separam das minhas primeiras lembranças de um ser. A imagem é um dia de Reis, festa na rua, som e alegria. Bateres na porta para solicitar ajuda na festa. Tudo era composto com cores e fantasias brilhantes de centenas de foliões. Aos 5 anos de idade, aquilo me parecia mais uma revoada de pombos gigantescos arrulhando freneticamente pelas ruas de BH. As primeiras letras aprendidas também aos 5 anos com meu irmão mais velho -que ficou encantado, virou estrela - Renato, que se dispunha a me letrar, como forma de distrair sua irmã caçula, sem idade escolar e atividades diárias.
A mente correu longos anos, longas horas, longas lutas e longas alegrias. Daquelas primeiras lembranças, me vi hoje com altura, peso, maturidade, vivência e raciocínio distantes anos luz, mas, descobri que o brilho do olhar é ainda o mesmo. É ali, dentro dos olhos, que os anseios e sonhos permanecem ocultos e evidentes. É ali, dentro dos olhos, que a alma levita e dança uma cadência ritmada e descompassada, me elevando às porções do espaço nobre da vida. Foi com o olhar que aprendi a sonhar o sonho real, do querer, do compartilhar, do amar, do refletir, do escarnecer, do sintonizar, do repudiar, do levitar, do gargalhar, do humanizar.
Nesse caminho, na minha trilha, vou tecendo os rumos e pincelando as formas da minha história. Lapidando esse diamante que compõe o ser humano. Sem pressa, sem regras, sem amarras. Tentando a cada dia rever meus enganos, erros de cálculo, imperícias e imprudências. Assim tentando, vou seguindo rumo ao melhor de mim. Não o melhor que os outros acham que deva ser, mas o melhor que minha essência pode dar.
Hoje, dia 10 de março, completo mais uma primavera, colho mais uma flor, passeio nas 365 rotações planetárias e brindo à vida. Brindo ao amor, à luta, à determinação, à amizade, à paixão! Brindo a cada um e a todos que se fizeram presentes em minha história, em meus dias, em minhas vitórias, em meus fracassos!
Tantas foram as manifestações recebidas e que ainda sei que receberei hoje. Lindas formas de escutar o amor. Lindas formas de se receber o dom da vida. Todas especiais, delicadas. Uma delas, recebi da prima Ester. Um lindo telefonema. Tocou fundo minha alma, meu ser. Disse que em sua oração encaminhada a mim hoje, abriu a Bíblia Sagrada e lá estava o Salmo 71:6 - "Em Ti me tenho apoiado desde o meu nascimento; do ventre materno Tu me tiraste, Tu és motivo para os meus louvores constantemente." E é a Ti, Senhor, que dedico essa minha jornada tão inundada de bênçãos e guardada de amor e alegria. Obrigada meu Deus! Obrigada meus pais! Obrigada minha família! Obrigada meus amigos! Obrigada pelos meus 21`ssss (fiquei de maior... rsrsrsrs)! Meus eternos vinte e unssssssss!!!!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Côncavo e convexo artísticos de Niemeyer

Foto: Eugênio Sávio

Hoje é um dia histórico. Histórico politicamente e pela conquista de um futuro artístico arrojado e socialmente integrante. Hoje está sendo comemorado o dia do aniversário dos cem anos do presidente Tancredo Neves. Tancredo de Minas, da esperança, das lutas e glórias, do sonho da presidência democrática e da desilusão pela morte arrebatadora de seu líder. É também o dia da inauguração da Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves, um marco artístico e inclusivo.
Entrar na Cidade Administrativa é trilhar um futuro limpo e agregador do côncavo e convexo da arquitetura brilhante de Niemeyer, um gênio da composição do concreto, artístico, paisagístico e humano. Tudo se agrega. Tudo se integra. Tudo se enquadra. É ele o criador desse espaço inusitado e brilhantre de composição e traços. Bendito Tancredo, bendito Niemeyer, bendito Aécio Neves! São vibrantes de futuro e de humanidade.


Quando cheguei à Cidade Administrativa, no início do dia de hoje, fui tomada por um sentimento patriótico, de grande orgulho dessa nossa terra-Minas. Foi assim, paixão à primeira vista, daquelas que arrebentam todos os fios ligados à razão. Olhar essa majestosa obra de arte à distância é totalmente diferente de adentrar em seus mais misteriosos caminhos. É energia de amor, coisa que só pessoas dotadas de muita sensibilidade poderiam ofertar para nosso povo.
O maior vão livre do mundo prendia com sua energia os convidados, trabalhadores e políticos participantes. Ah, como é bom sentir o sonho dos mestres como Niemeyer e Tancredo! Imponente arte por sua dimensão, acolhedora por suas curvas e incorporação.
Logo no início, foram eles, os trabalhadores, que uniram tijolo por tijolo daqueles traços que iniciaram a festa. Anunciada pela mestre de cerimônia Cristiane Torloni, com seu encanto e lembranças do tempo das Diretas Já, fez arrepiar todos os sentidos naquela performance dinâmica dos trabalhadores que orquestravam com seus capacetes um ir e vir, pincelando nomes dos principais representantes de nossa histórica Minas Gerais. A cada gesto, a cada passo, se ouvia o som do Peixe Vivo, inundando de suavidade e orgulho os mais de 8 mil integrantes da solenidade. Aplausos verdadeiros se fizeram chegar àqueles que possuem a dureza da massa de mais de 4 mil metros cúbicos de concreto e a delicadeza do esculpir os entornos e contornos do maior vão livre do mundo, com seus 150 metros de cumprimento, resultando no côncavo e convexo olhar de Niemeyer.
Foto: Wellington Pedro

A seguir, Fafá de Belém, sozinha, vestida das cores da bandeira mineira na rampa que dá acesso ao auditório JK, cantou o Hino Nacional Brasileiro. Apenas sua voz e o microfone, depois um leve arranjo, um crescente aumento do agudo até se juntar às batidas dos corações do público. Coisa dos deuses! Maravilhosa voz e interpretação, a cada gesto dos braços e o balançar dos cabelos ao vento era como se ali estivesse sendo erguida a bandeira de Minas.
Agora, entra em cena nosso cantor das Gerais, Milton Nascimento, com Coração de Estudante, embalando as imagens da vida de Tancredo, Niemeyer e da construção da Cidade Administrativa, sonho maior de Aécio Neves. Muitas lembranças passaram por minha memória, dos tempos das Diretas Já, das ruas e das bandeiras em curvas sopradas pelo coral dos brasileiros exigindo o fim da ditadura militar. Lembranças dos sindicatos, do nacionalismo, dos ideais do nosso povo. Depois a dor pela perda do nosso primeiro representante civil que ocuparia o Palácio do Planalto e os nossos corações cheios de desejos de liberdade. Tempo histórico, vibrante e comovente.
O cenário agora é do neto de Tancredo, Aécio Neves. Fez um discurso perfeito, com tom de despedida. Despedida de Minas, seja como candidato ao Senado ou à presidencia da República. Politicamente e partidariamente Aécio não condiz com meus anseios de cidadã, mas se integra aos meus propósitos mais firmes da conciliação, harmonia e competência humana. Os presentes gritaram várias vezes por Aécio na presidência. Mas, estava ali o seu algoz político, José Serra, tirando do PSDB a única chance de seguir até o segundo turno na candidatura à presidência da República, em oposição à candidata do PT, ministra Dilma.
Política é assim, como nuvem vai e volta e se transforma a cada segundo. Acredito ainda que ao PSDB nada resta a não ser convocar Aécio para tomar frente ao cargo de candidato à presidência, juntamente com um vice do PMDB. O quadro político assim seria aberto, com José Serra candidato forte à reeleição do governo de São Paulo. Dilma por sua vez poderia se aliar abertamente ao Ciro Gomes, onde montariam uma parceria fortíssima para conquistar a vaga do Palácio do Planalto. Minas teria os candidatos Hélio Costa e Anastasia como vice; Patrus pelo PT e Itamar Franco ao Senado.
Dia de comemorações e sentimentos fortes. Parabéns Tancredo! Parabéns Niemeyer! Parabéns Aécio Neves! Parabéns ao povo mineiro! Parabéns ao trabalhador brasileiro!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Falando de política...

A política está em minhas veias. Há muitos anos, meu avô materno, médico higienista, cardiologista, ginecologista e obstetra clinicou em Pirapora, terra natal de minha mãe e tia. Quase sempre se deparava com situações densas, onde ele, o único médico da cidade, era fortemente combatido pelos políticos de plantão, desses que o Brasil certamente se envergonha até os dias de hoje. Ele, homem sério, de família abastada de Santa Bárbara e Ponte Nova, abandonou sua terra e seus bens materiais por amor a minha avó Joana Rosa e pela ideologia socialista que o acompanhou em cada gesto de seus dias. Era um Alvarenga de fibra, lutava pela melhoria da qualidade da saúde da cidade que escolheu para viver e trabalhar com a profissão que lhe rendeu muitos inimigos políticos, mas milhares de amigos cativos, clientes que o tinham na mais terna gratidão. O Dr. Antônio de Alvarenga como era conhecido, não fazia de sua profissão uma ponte para o enriquecimento e sim usava seu dom para minimizar inúmeros sofrimentos provenientes de doenças impiedosas que atingiam quase sempre pessoas humildes, moradores de uma cidade sem saneamento básico e recursos destinados ao tratamento da saúde da população. Atendia a todos em sua residência, pois ainda não havia hospitais naquela região de Minas. Ao escutar as batidas em sua porta, se engravatava, vestia seu melhor terno e, sem distinção de classe econômica ou credo, atendia a todos com a maior competência e um sorriso acolhedor. Se o cliente podia pagar a consulta, recebia seus honorários e se o cliente era desprovido de recursos financeiros, recebia ele sempre um muito obrigado e um Deus lhe pague com muito carinho. Sempre foi assim. Morreu pobre, socialista, amado pela grande maioria da cidade e nunca se vendeu aos interesses dos políticos locais ou de afortunados coronéis inescrupulosos. Morreu dormindo, um presente do céu para quem sempre foi suave como a brisa e forte como a tempestade.
Vem dai minha admiração pela grandeza de caráter, pela fibra, hombridade, pela generosidade e pelo amor ao próximo. O homem é um ser social e político na expressão mais profunda da palavra. A política que gera benefícios para uma sociedade, constroi alicerces de caráter e edifica os anseios de um mundo melhor por onde passa. Essa é a real expressão do termo que hoje está quase sempre deturpado.
Sempre discorro sobre política com meus amigos e familiares, sem tons autoritários da razão, mas com o som que vem da alma. Gosto de observar os caminhos do presente do Brasil e do restante do planeta, está no sangue dos Alvarengas.
O assunto de hoje no horário de almoço foi a suposta candidatura do governador de Minas Aécio Neves ao Senado. Ao observar que o Relações Públicas, Cerimonialista do Palácio e nosso amigo Manoel Guedes estava na mesa próxima no PIC, resolvi perguntar a ele qual era a sua posição a respeito do governador Aécio e sua candidatura ao Senado brasileiro. Manoel, com toda a sua bagagem política acha que foi uma decisão acertada, pois ainda jovem, o governador pode certamente se candidatar futuramente ao cargo de presidente do nosso país.
Penso, repenso e digo minha visão política atual dos acontecimentos mais recentes envolvendo Aécio Neves e o PSDB.
Até hoje o governador de São Paulo, José Serra, não oficializou sua candidatura à presidência do país. Será mesmo ele o candidato do PSDB? Acho pouco provável. O partido perde o apoio do PMDB e de outros partidos menores com a saída de Aécio ao pleito do Palácio dos Despachos. Os paulistas do PSDB certamente brecaram a entrada de Aécio como candidato e de José Serra como vice. Aécio Neves, raposa na arte política, soube dar seu cheque-mate ao partido. Ele se candidata ao Senado e leva com ele o apoio dos partidos políticos, deixando o PSDB a ver navios, ou seja, tornando inviável a candidatura de Serra, pois fica ele assim, com poucas chances de uma vitória. Os paulistas colocam mais uma vez o PSDB em situação delicada: perdem a presidência da República e o governo de São Paulo? Acho que não. É preferível um pássaro na mão do que dois voando, não é assim? Se José Serra sair condidato a suceder Lula, certamente perde sua chance de ser reeleito como governador de São Paulo, pois Geraldo Alckimin não será páreo para Ciro Gomes. Também não tem força pessoal e política para enfrentar sua candidatura sem apoio de outros partidos. Resta a Serra a sua candidatura a reeleição ao governo de São Paulo, contando com a máquina administrativa a seu favor e o fato de que os paulistas ainda são mais conservadores nos votos.
Entra em cena, o governador Aécio Neves, como candidato único do PSDB, juntamente com os partidos que o apoiam. É tudo ou nada para o PSDB. O partido não é feito apenas de políticos paulistas e essa é a única alternativa a meu ver, para que eles possam estar no páreo contra Dilma.
Pessoalmente não sou fã de Aécio, Serra, FHC, Alckimin e seus correligionários. Estão em uma sinuca de bico, como diriam os antigos. A política de Lula é forte e está nas mãos do presidente. Não se iludam quanto a Dilma ser uma candidata apenas de Lula. É uma mulher inteligente e atuante. Quando ficar de frente a telinha e demonstrar sua fluidez de pensamento e de comunicação irá conquistar uma grande parte desse país. Não se pode esquecer também que uma mulher candidata, ligada diretamente ao presidente Lula, envolvida com a política há décadas é, certamente uma super-candidata a governar o Brasil e se sair muito bem.
Será que FHC pensa ainda em ressurgir das cinzas?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Seimei e a Raposa* - Homenagem ao dia do professor






Por: Adaptação Prof. Dr. Marcos Ferreira Santos

Mukashi... mukashi**...



Havia um mestre chamado Nakamaro
Profundo conhecedor das coisas
Convidado a estudar na China pelo próprio imperador,
Tornou-se venerável professor, mas nunca mais,
Para sua terra, Nihon, nas ilhas do Japão, retornou.
Um de seus descendentes,
Samurai de nome Abeno-Yasuna,
Exímio arqueiro e galopador,
Não entendia o que guardavam as letras,
As palavras dos livros, das artes e das ciências.
Incapaz de honrar seu ancestral,
Resolveu ter um filho
Estudioso, que fosse como o tal,
Um venerável mestre e professor.
Recolhia-se, todos os meses, na floresta de Shinoda
A rezar para os deuses, para cumprir o destino,
Um filho que fosse como seu ancestral,
Um venerável mestre e professor.
Num outono de vento forte e flores vermelhas,
Quando se recolhia Amaterasu, deusa do Sol,
E Marishi-ten, a deusa do raio de luz, deitava-se ao mar,
Depois de rezar e pedir com fervor.
Quis em zazen a paisagem contemplar,
Seus servos montaram uma tenda rápida,
Recolheram-se em cantigas a contar velhas histórias
E a tomar sakê, o vinho das lágrimas,
Memória líquida dos campos de arroz.
Naquele momento, entrou na tenda -
Rápida e fugaz - uma coisa castanha
De grossa cauda macia e vermelha.
No kimono de Yasuna, a se esconder sob sua manga,
Chorosa e assustada, uma raposa, bela e pequena.
Logo se ouviram tambores e samurais gritando
Pela tenda adentro, insultando e tudo revirando.
Pela raposa esguia perguntando:
- Somos servos do senhor Ishikawa,
Irmão do vidente Dôman Ashiya.
Procuramos pela raposa fugitiva!
Yasuna, indignado com a falta de respeito,
Com golpes certeiros de sua kataná
Expulsa todos os samurais.
Já longe, os perseguidores em fuga,
Diz à raposa para se esconder na floresta
E não mais voltar, a guardar a vida que lhe resta.
O olhar da raposa, em gratidão e ternura,
Com castanho sentimento penetrou sereno
O pequeno coração do grande Yasuna.
Ao voltar para casa, na estrada,
Yasuna e os seus foram cercados e atacados
- Ishikawa mandou prendê-lo a sofrer castigo.
Todos lutaram, bravamente, mas sucumbiram,
Ficando Yasuna, o bravo arqueiro, a resistir sozinho.
Preso e ferido foi ter com Dôman, o vidente que disse:
- De Ishikawa está doente a querida esposa
E só o coração da fêmea raposa a poderia salvar.
A deixaste fugir e, agora, a espada de Ishikawa
Vingará com tua vida a tarefa perdida
Já no alto a espada de Ishikawa luzindo,
Alguém interfere aos brados perquirindo:
- Ah, Senhor Ishikawa, o que estás
A fazer tão longe de teu pagode?
Yasuna levanta a cabeça e vê nobre cavaleiro-monge
Do vale à montanha, da montanha ao monte,
Cavalo de sombras anda desperto; anda liberto.
De barba branca, voz marinha e dedos de raiz.
- Senhor monge do templo de Fuji!
Era o guardião dos antepassados de Ishikawa
Recrimina o nobre em ato tão vil e pobre:
- Isso não é bom, caçar raposa para a vida de sua esposa salvar.
Agora quer tirar de outra pessoa a vida, castigo virá...
Se, ao contrário, salvas; podes a tua família exemplar.
Ishikawa liberta das cordas Yasuna
E o deixa com o cavaleiro-monge para que,
Na contemplação do Zen, monge se torne também.
Caminhando juntos pelas sendas da floresta além,
Yasuna agradece a vida salva e lhe responde o cavaleiro-monge:
- Eu é que ainda tenho a agradecer pela vida que me salvaste
Em uma situação tão estranha...
Então, ao olhar para o cavaleiro-monge, tão-somente vê
A pequena e bela raposa castanha.
Mas, sem dizer palavra, ela se embrenha na mata.
Yasuna intenta alcançá-la, mas em vão, porém,
E ela volve a olhar para trás, uma e outra vez,
O olhar da raposa em gratidão e ternura
Com castanho sentimento penetrou sereno
O coração pequeno do grande Yasuna.
Cansado e ferido, ouve murmúrio de rio,
Deita-se à margem a beber da água cristalina
E se surpreende diante da figura repentina
Jovem bela que lava roupa na correnteza
Como se à biwa estivesse, entoa divina cantiga.
Empalidece a paisagem com sua beleza.
Assustada, recua e empalidece.
- Não temas; não fujas menina da lua cheia!
Yasuna lhe conta sua saga e desfalece
Ela o socorre, feridas cuida e o alimenta.
Ao querer partir, agradecido,
Ela aconselha, com olhar enternecido:
- Espera a primavera, arqueiro Yasuna,
E aguarda a neve derreter.
Assim, ele o fez; e feliz a viver como casal, não tardou a
Nascer do amor dos dois um menino:
Seimei, seu nome foi escolhido e
Foi tão sonhado, tão pedido, tão querido...
Yasuna caçava, cuidava da roça e do arroz,
Letrava o menino, cuidava da esposa.
Ela tecia estampas para os kimonos
Com flores vermelhas como o outono.
Sakura bordava cerejeiras em flor.
Trabalhava tanto que um dia desmaiou
Sobre a roda, a roca e os fusos.
O filho confuso chama o pai a socorrer
E, sob os tecidos deitados no chão,
só vão encontrar, no lugar da esposa,
A pata peluda em vermelhos tufos
Da mesma pequena e castanha raposa:
- Já não posso esconder, não posso ficar.
Diz chorosa a raposa e na floresta vai se refugiar.
O olhar da raposa em gratidão e ternura
Com castanho sentimento penetrou sereno
O coração pequeno do grande Yasuna.
No dia seguinte, na parede do quarto,
Um tanka, um poema gravado:
“Venha à floresta de Shinoda
“se saudades de mim sentir”,
Seimei reconhece da mãe, a letra,
E com o samurai Yasuna, seu pai,
Se vão à busca: moitas, sarças, troncos, tocas,
Chorando o menino no meio da mata de Shinoda,
Sentindo a falta, da mãe ou raposa, pouco importa.
A dorida raposa-mãe ouve o lamento
Não resiste e aparece, alivia o sofrimento:
- Dar-te-ei dois presentes para te guiar:
Uma caixa com um gofû – carta sagrada do Dragão do Mar,
Com a qual tudo tu podes ver, dentro e fora e tudo mais,
E uma esfera que te revela, ao ouvido, toda fala,
E o que dizem, em segredo, os animais.
Terás, então, a abrir-te os caminhos,
O sentimento e a razão, a esfera e a caixa,
Yin e Yang e o equilíbrio: eis o mistério triplo.
Guarda o conhecimento no coração
- Que é de onde veio e para onde irá -
E ninguém de ti o tirará.
Assim, trilharás bem o teu shinto
- O teu caminho.
E cuida com carinho de quem te necessitar
Por mais estranha que seja a situação que te ocorra
Mesmo sendo uma pequena e castanha raposa.
Seimei assim a casa retornou,
Estudou as letras e ouviu histórias.
Do ancestral Nakamaro muito aprendeu.
Com vitória, aos baku, combateu
Comedores de sonhos que habitam o desespero
Com esmero e cuidado, obedeceu às estrelas.
Plantou jardins, amou árvores e pescou nos mares.
Ressuscitou ao pai, Yasuna, que
Morrera de saudades da raposa.
Cantou e observou a natureza,
E foi grande mestre e profundo conhecedor.
Assim se cumpriu sua destinação de professor:
Sob um formoso arco-íris em plena chuva,
Vivem o arqueiro, o cavaleiro-monge e a bela esposa,
na alma da pequena e castanha raposa.
O olhar da raposa em gratidão e ternura
Com castanho sentimento penetrou sereno
O coração pequeno do grande Yasuna.
E a ressoar em profunda voz
Aninha-se no coração de todos nós.

* Poema baseado em mito também conhecido como “O monge e a raposa”, a partir de KAWAI, Mitsuko (1997). Lendas do Japão. São Paulo: Editora do Escritor/Luz e Silva Editor.
O cavaleiro-monge é a paráfrase de Fernando Pessoa (“Do vale à montanha”, 24/10/1932 e musicado por Tom Jobim), e possui, nesta narrativa mítica, as características de Jurojin, um dos sete deuses (kami) japoneses, símbolo da longevidade e da sabedoria, e um dos introdutores míticos do Zen (contemplação); bem como características de Bishamon, guerreiro e missionário, deus da abundância. A jovem esposa se assemelha à Benten ou Benzai-ten, deusa do mar e dos rios, das artes e do feminino, que na iconografia aparece tocando biwa (tradicional instrumento de cordas semelhante à mandolina). Em algumas versões, a própria raposa aparece como mensageira da deusa Inari, protetora dos ferreiros e do arroz.
Texto adaptado pelo Prof. Dr. Marcos Ferreira Santos (www.marculus.net), livre-docente da Faculdade de Educação da USP, professor de mitologia comparada e de “Cultura & Educação”.

** Bordão tradicional japonês para iniciar a récita de antigas histórias. Pronunciado em tom encantatório e lento, equivale a dizer “há muito, muito, muito tempo atrás...”

sábado, 26 de setembro de 2009

Fanatismo - Florbela Espanca


Fanatismo


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !


Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !


E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

A Canção Desesperada - Pablo Neruda

pablo-neruda


Aparece tua recordação da noite em que estou.
O rio reúne-se ao mar seu lamento obstinado.

Abandonado como o impulso das auroras.
É a hora de partir, oh abandonado!

Sobre meu coração chovem frias corolas.
Oh sentina de escombros, feroz cova de náufragos!

Em ti se ajuntaram as guerras e os vôos.
De ti alcançaram as asas dos pássaros do canto.

Tudo que o bebeste, como a distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!

Era a alegre hora do assalto e o beijo.
A hora do estupor que ardia como um faro.

Ansiedade de piloto, fúria de um búzio cego
túrgida embriaguez de amor, Tudo em ti foi naufrágio!

Na infância de nevoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

Tu senti-se a dor e te agarraste ao desejo.
Caiu-te uma tristeza, Tudo em ti foi naufrágio!

Fiz retroceder a muralha de sombra.
Andei mais adiante do desejo e do ato.

Oh carne, carne minha, mulher que amei e perdi,
e em ti nesta hora úmida, evoco e faço o canto.

Como um vaso guardando a infinita ternura,
e o infinito olvido te quebrou como a um vaso.

Era a negra, negra solidão das ilhas,
e ali, mulher do amor, me acolheram os seus braços.

Era a sede e a fome, e tu foste à fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.

Ah mulher, não sei como pode me conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!

Meu desejo por ti foi o mais terrível e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais tirante e ávido.

Cemitério de beijos,existe fogo em tuas tumbas,
e os racimos ainda ardem picotados pelos pássaros.

Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos traçados.

Oh a cópula louca da esperança e esforço
em que nos ajuntamos e nos desesperamos.

E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra apenas começada nos lábios.

Esse foi meu destino e nele navegou o meu anseio,
e nele caiu meu anseio, Tudo em ti foi naufrágio!

Oh imundice dos escombros, que em ti tudo caía,
que a dor não exprimia, que ondas não te afogaram.

De tombo em tombo inda chamas-te e cantas-te
de pé como um marinheiro na proa de um barco.

Ainda floris-te em cantos, ainda rompes-te nas correntes.
Oh sentina dos escombros, poço aberto e amargo.

Pálido búzio cego, desventurado desgraçado,
descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

É a hora de partir, a dura e fria hora
que a noite sujeita a todos seus horários.

O cinturão ruidoso do mar da cidade da costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.

Abandonado como o impulso das auroras.
Somente a sombra tremula se retorce em minhas mãos.

Ah mais além de tudo. Ah mais além de tudo.
É a hora de partir. Oh abandonado.