quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Seimei e a Raposa* - Homenagem ao dia do professor






Por: Adaptação Prof. Dr. Marcos Ferreira Santos

Mukashi... mukashi**...



Havia um mestre chamado Nakamaro
Profundo conhecedor das coisas
Convidado a estudar na China pelo próprio imperador,
Tornou-se venerável professor, mas nunca mais,
Para sua terra, Nihon, nas ilhas do Japão, retornou.
Um de seus descendentes,
Samurai de nome Abeno-Yasuna,
Exímio arqueiro e galopador,
Não entendia o que guardavam as letras,
As palavras dos livros, das artes e das ciências.
Incapaz de honrar seu ancestral,
Resolveu ter um filho
Estudioso, que fosse como o tal,
Um venerável mestre e professor.
Recolhia-se, todos os meses, na floresta de Shinoda
A rezar para os deuses, para cumprir o destino,
Um filho que fosse como seu ancestral,
Um venerável mestre e professor.
Num outono de vento forte e flores vermelhas,
Quando se recolhia Amaterasu, deusa do Sol,
E Marishi-ten, a deusa do raio de luz, deitava-se ao mar,
Depois de rezar e pedir com fervor.
Quis em zazen a paisagem contemplar,
Seus servos montaram uma tenda rápida,
Recolheram-se em cantigas a contar velhas histórias
E a tomar sakê, o vinho das lágrimas,
Memória líquida dos campos de arroz.
Naquele momento, entrou na tenda -
Rápida e fugaz - uma coisa castanha
De grossa cauda macia e vermelha.
No kimono de Yasuna, a se esconder sob sua manga,
Chorosa e assustada, uma raposa, bela e pequena.
Logo se ouviram tambores e samurais gritando
Pela tenda adentro, insultando e tudo revirando.
Pela raposa esguia perguntando:
- Somos servos do senhor Ishikawa,
Irmão do vidente Dôman Ashiya.
Procuramos pela raposa fugitiva!
Yasuna, indignado com a falta de respeito,
Com golpes certeiros de sua kataná
Expulsa todos os samurais.
Já longe, os perseguidores em fuga,
Diz à raposa para se esconder na floresta
E não mais voltar, a guardar a vida que lhe resta.
O olhar da raposa, em gratidão e ternura,
Com castanho sentimento penetrou sereno
O pequeno coração do grande Yasuna.
Ao voltar para casa, na estrada,
Yasuna e os seus foram cercados e atacados
- Ishikawa mandou prendê-lo a sofrer castigo.
Todos lutaram, bravamente, mas sucumbiram,
Ficando Yasuna, o bravo arqueiro, a resistir sozinho.
Preso e ferido foi ter com Dôman, o vidente que disse:
- De Ishikawa está doente a querida esposa
E só o coração da fêmea raposa a poderia salvar.
A deixaste fugir e, agora, a espada de Ishikawa
Vingará com tua vida a tarefa perdida
Já no alto a espada de Ishikawa luzindo,
Alguém interfere aos brados perquirindo:
- Ah, Senhor Ishikawa, o que estás
A fazer tão longe de teu pagode?
Yasuna levanta a cabeça e vê nobre cavaleiro-monge
Do vale à montanha, da montanha ao monte,
Cavalo de sombras anda desperto; anda liberto.
De barba branca, voz marinha e dedos de raiz.
- Senhor monge do templo de Fuji!
Era o guardião dos antepassados de Ishikawa
Recrimina o nobre em ato tão vil e pobre:
- Isso não é bom, caçar raposa para a vida de sua esposa salvar.
Agora quer tirar de outra pessoa a vida, castigo virá...
Se, ao contrário, salvas; podes a tua família exemplar.
Ishikawa liberta das cordas Yasuna
E o deixa com o cavaleiro-monge para que,
Na contemplação do Zen, monge se torne também.
Caminhando juntos pelas sendas da floresta além,
Yasuna agradece a vida salva e lhe responde o cavaleiro-monge:
- Eu é que ainda tenho a agradecer pela vida que me salvaste
Em uma situação tão estranha...
Então, ao olhar para o cavaleiro-monge, tão-somente vê
A pequena e bela raposa castanha.
Mas, sem dizer palavra, ela se embrenha na mata.
Yasuna intenta alcançá-la, mas em vão, porém,
E ela volve a olhar para trás, uma e outra vez,
O olhar da raposa em gratidão e ternura
Com castanho sentimento penetrou sereno
O coração pequeno do grande Yasuna.
Cansado e ferido, ouve murmúrio de rio,
Deita-se à margem a beber da água cristalina
E se surpreende diante da figura repentina
Jovem bela que lava roupa na correnteza
Como se à biwa estivesse, entoa divina cantiga.
Empalidece a paisagem com sua beleza.
Assustada, recua e empalidece.
- Não temas; não fujas menina da lua cheia!
Yasuna lhe conta sua saga e desfalece
Ela o socorre, feridas cuida e o alimenta.
Ao querer partir, agradecido,
Ela aconselha, com olhar enternecido:
- Espera a primavera, arqueiro Yasuna,
E aguarda a neve derreter.
Assim, ele o fez; e feliz a viver como casal, não tardou a
Nascer do amor dos dois um menino:
Seimei, seu nome foi escolhido e
Foi tão sonhado, tão pedido, tão querido...
Yasuna caçava, cuidava da roça e do arroz,
Letrava o menino, cuidava da esposa.
Ela tecia estampas para os kimonos
Com flores vermelhas como o outono.
Sakura bordava cerejeiras em flor.
Trabalhava tanto que um dia desmaiou
Sobre a roda, a roca e os fusos.
O filho confuso chama o pai a socorrer
E, sob os tecidos deitados no chão,
só vão encontrar, no lugar da esposa,
A pata peluda em vermelhos tufos
Da mesma pequena e castanha raposa:
- Já não posso esconder, não posso ficar.
Diz chorosa a raposa e na floresta vai se refugiar.
O olhar da raposa em gratidão e ternura
Com castanho sentimento penetrou sereno
O coração pequeno do grande Yasuna.
No dia seguinte, na parede do quarto,
Um tanka, um poema gravado:
“Venha à floresta de Shinoda
“se saudades de mim sentir”,
Seimei reconhece da mãe, a letra,
E com o samurai Yasuna, seu pai,
Se vão à busca: moitas, sarças, troncos, tocas,
Chorando o menino no meio da mata de Shinoda,
Sentindo a falta, da mãe ou raposa, pouco importa.
A dorida raposa-mãe ouve o lamento
Não resiste e aparece, alivia o sofrimento:
- Dar-te-ei dois presentes para te guiar:
Uma caixa com um gofû – carta sagrada do Dragão do Mar,
Com a qual tudo tu podes ver, dentro e fora e tudo mais,
E uma esfera que te revela, ao ouvido, toda fala,
E o que dizem, em segredo, os animais.
Terás, então, a abrir-te os caminhos,
O sentimento e a razão, a esfera e a caixa,
Yin e Yang e o equilíbrio: eis o mistério triplo.
Guarda o conhecimento no coração
- Que é de onde veio e para onde irá -
E ninguém de ti o tirará.
Assim, trilharás bem o teu shinto
- O teu caminho.
E cuida com carinho de quem te necessitar
Por mais estranha que seja a situação que te ocorra
Mesmo sendo uma pequena e castanha raposa.
Seimei assim a casa retornou,
Estudou as letras e ouviu histórias.
Do ancestral Nakamaro muito aprendeu.
Com vitória, aos baku, combateu
Comedores de sonhos que habitam o desespero
Com esmero e cuidado, obedeceu às estrelas.
Plantou jardins, amou árvores e pescou nos mares.
Ressuscitou ao pai, Yasuna, que
Morrera de saudades da raposa.
Cantou e observou a natureza,
E foi grande mestre e profundo conhecedor.
Assim se cumpriu sua destinação de professor:
Sob um formoso arco-íris em plena chuva,
Vivem o arqueiro, o cavaleiro-monge e a bela esposa,
na alma da pequena e castanha raposa.
O olhar da raposa em gratidão e ternura
Com castanho sentimento penetrou sereno
O coração pequeno do grande Yasuna.
E a ressoar em profunda voz
Aninha-se no coração de todos nós.

* Poema baseado em mito também conhecido como “O monge e a raposa”, a partir de KAWAI, Mitsuko (1997). Lendas do Japão. São Paulo: Editora do Escritor/Luz e Silva Editor.
O cavaleiro-monge é a paráfrase de Fernando Pessoa (“Do vale à montanha”, 24/10/1932 e musicado por Tom Jobim), e possui, nesta narrativa mítica, as características de Jurojin, um dos sete deuses (kami) japoneses, símbolo da longevidade e da sabedoria, e um dos introdutores míticos do Zen (contemplação); bem como características de Bishamon, guerreiro e missionário, deus da abundância. A jovem esposa se assemelha à Benten ou Benzai-ten, deusa do mar e dos rios, das artes e do feminino, que na iconografia aparece tocando biwa (tradicional instrumento de cordas semelhante à mandolina). Em algumas versões, a própria raposa aparece como mensageira da deusa Inari, protetora dos ferreiros e do arroz.
Texto adaptado pelo Prof. Dr. Marcos Ferreira Santos (www.marculus.net), livre-docente da Faculdade de Educação da USP, professor de mitologia comparada e de “Cultura & Educação”.

** Bordão tradicional japonês para iniciar a récita de antigas histórias. Pronunciado em tom encantatório e lento, equivale a dizer “há muito, muito, muito tempo atrás...”

2 comentários:

  1. Cleusa certa vez li esta homenagem e lembrei-me dos mestres que passaram na minha vida:


    Que bom que esta tua vocação
    Tem despertado a vocação de muitos.
    Parece injusto desejar-te um feliz dia dos professores,
    Quando em seu dia-a-dia
    Tantas dificuldades acontecem.
    A rotina é dura, mas você ainda persiste.
    Teu mundo é alegre, pois você
    Consegue olhar os olhos de todos os outros
    E fazê-los felizes também.

    Você é feliz, pois na tua matemática de vida,
    Dividir é sempre a melhor solução.
    Você é grande e nobre, pois o seu ofício árduo lapida
    O teu coração a cada dia,
    Dando-te tanto prazer em ensinar.

    Homenagens, frases poéticas,
    Certamente farão parte do seu dia a dia,
    E quero de forma especial, relembrar
    A pessoa maravilhosa que você é
    E a importância daquilo do seu ofício.
    É por isto que você merece esta homenagem
    Hoje e sempre, por aquilo que você é
    E por aquilo que você faz.


    Beijos de Beth e Alan

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  2. O que seria de nós se não existissem os nossos grandes mestres e inspiradores de nossos talentos? Esta é, sem dúvida, uma profissão brilhante e imensamente abençoada.
    bjs!

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